Gêmeos siameses morrem antes de serem transferidos de avião

A mãe dos siameses acompanharia o traslado das crianças, que seguiriam viagem em uma encubadora

A Secretaria Municipal de Saúde de Alenquer (PA) informou que os gêmeos siameses, que nasceram nesta segunda-feira (30), morreram na madrugada desta quarta-feira (1º), momentos antes de serem transportados de avião para Belém, onde ficariam internados na Santa Casa de Misericórdia, que é referência no estado para esse tipo de caso.

A mãe dos siameses, uma lavradora de 26 anos, acompanharia o traslado das crianças, que seguiriam viagem em uma encubadora. Os gêmeos estavam unidos pelo abdômen e pelo tórax e, segundo informações preliminares dos médicos de Alenquer, não dividiam órgãos internos, o que aumentava a possibilidade de cirurgia para separação. Até o momento da viagem, a secretaria havia informado que o estado de saúde deles era bom e estável.

"Estamos surpresos com a morte deles, pois o quadro de saúde deles era bom e estável. O caso está sendo analisado, pois ainda não sabemos o que provocou a morte das crianças. Há a hipótese de que as duas crianças pudessem estar dividindo as funções de um mesmo órgão, mas ainda vamos aguardar o resultado do laudo legista", disse Socorro Damasceno, secretária de Saúde de Alenquer.

Ainda segundo a secretária, o médico Ronaldo Rabelo, que realizou o parto, era o mesmo que iniciou o pré-natal da mãe, que não teria retornado ao consultório com o resultado do ultrassom. "Ela apareceu novamente já em trabalho de parto. O médico teve dificuldade em retirar a primeira criança. Ele, então, realizou mais uma incisão para ver o que estava acontecendo e foi neste momento que ele viu que havia outra criança dentro da mãe e que se tratavam de gêmeos siameses", explicou Socorro.

Caso recente também no Pará

Em 19 de dezembro, um par de meninos siameses nasceu em Anajás, Pará. O caso dos bebês Jesus e Emanuel ganhou repercussão internacional depois que a foto foi divulgada por agências de notícias. No site da rede britânica BBC, o caso foi noticiado como o de gêmeos "com duas cabeças e um coração".

Jesus e Emanuel estão internados na Santa Casa, em Belém, mesmo hospital para onde vão os gêmeos nascidos Alenquer. A instituição informou nesta terça (31) que Jesus e Emanuel estão bem e já estão sendo amamentados pela mãe.

Segundo médicos ouvidos pelo G1, o nascimento de bebês siameses é um fato raro (na população geral, a ocorrência varia de 1 para 50 mil até 1 para 100 mil gestações) e a chance sobrevida é pequena (de menos de 10%, de acordo com um estudo brasileiro).

A separação ocorre em alguns casos, mas quando coração e pulmões são separados, o que não ocorreu com Jesus e Emanuel. De acordo com a chefe de enfermagem do setor de neonatologia da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, Rosana Nunes, os bebês têm duas cabeças, dois cérebros, um coração, duas colunas, dois estômagos, três pulmões, dois intestinos, dois braços, duas pernas, uma bexiga, um órgão genital e um ânus. Mesmo dividindo um só corpo, são considerados indivíduos separados, por terem dois cérebros, duas personalidades e sistemas cognitivos diferentes.

Estudo feito em São Paulo

De acordo com um estudo feito no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo, casos de gêmeos grudados pelo tórax são os mais comuns. No entanto, a grande maioria (72,2%) dos siameses é de meninas.

A pesquisa foi publicada em setembro de 2011, na revista científica "Prenatal Diagnosis", envolvendo 36 pares de gêmeos siameses identificados ou atendidos pelo hospital ao longo de 12 anos. O sexo dos bebês era masculino em 19,4% dos casos e desconhecido ou impossível de determinar em 8,3%.

No caso de Jesus e Emanuel, os problemas de circulação são o principal risco para a vida deles. Com dois cérebros para manter, o coração único fica sobrecarregado. Segundo um dos autores do estudo do HC-SP, o obstetra Adolfo Liao, quando siameses têm apenas um coração, as chances de sobrevivência "são mínimas". Liao é o responsável pelo setor de gestações múltiplas do hospital.

Segundo o estudo do HC, 91,6% dos siameses avaliados tinham problemas cardíacos. Cerca de dois terços das crianças unidas pela lateral apresentavam fusões cardíacas complexas, com átrios, ventrículos, veias e artérias compartilhados ? o que torna impossível a cirurgia de separação, de acordo com outro médico do HC, Manoel Carlos Velhote, especialista em operações do tipo.

"Há corações artificiais, mas são temporários, e logo a criança precisaria de transplante. Mas a doação de coração nessa idade é muito pequena, e as filas são longas", afirma.

Por que a malformação ocorre

A incidência de gêmeos siameses é, segundo a literatura médica, de 1% entre todos os casos de bebês "univitelinos" ? aqueles formados por um único óvulo e espermatozoide, que gera crianças idênticas. Na população geral, a ocorrência varia de 1 para 50 mil até 1 para 100 mil gestações.

Gêmeos podem ser siameses por causa de uma separação tardia do zigoto (célula que resulta da união do óvulo com o espermatozoide). Nas gestações normais de gêmeos, isso acontece até o nono dia após a fecundação. Nos siameses, é por volta do 12º dia. Os médicos ainda não sabem por que esse atraso acontece, nem por que ele gera um erro na divisão.

O fato de haver mais casos de siameses meninas do que meninos faz alguns médicos acreditarem que exista algum componente hormonal na anomalia, segundo Liao. A maioria dos especialistas, no entanto, acredita mais na hipótese de um evento aleatório, sem ligação com problemas genéticos ou ambientais.

Diagnóstico e prognóstico

Quanto mais precoce for o diagnóstico, mais rápido se pode avaliar se há chances de cirurgia. "Às vezes, isso [a operação] deve ser feito muito rápido, logo na primeira semana [de vida], mas há casos em que os bebês precisam ganhar peso e se desenvolver primeiro", afirma Liao.

Ultrassons para detectar esse tipo de malformação têm sido feitos desde 1974, e hoje em dia a maioria é identificada precocemente. Muitas mulheres acabam abortando após o resultado -- o que é permitido pela legislação brasileira com autorização judicial.

"A interrupção da gravidez pode ser uma opção nos casos em que não há chances de sobrevida para o feto ou risco de morte para a mãe, mas a questão deve ser levada para um juiz, e a autorização precisa sair antes das 24 semanas de gestação para que o aborto seja realizado?, detalha Liao. Segundo o obstetra do HC, esse é o mesmo procedimento adotado com fetos anencéfalos (sem cérebro).

Dos 36 pares estudados pelo HC, 30 foram considerados, durante a gravidez, impossíveis de serem separados. Desses 30, 19 casais entraram na Justiça para interromper a gravidez -- 14 conseguiram a autorização. Todos os 16 pares que nasceram desse grupo morreram -- metade nos dois primeiros dias de vida, a outra metade em até três meses.

Seis pares foram avaliados e considerados aptos para a cirurgia. Um par morreu de infecção antes da operação. Três pares precisaram passar por uma cirurgia de emergência, porque um dos irmãos estava morrendo. Desses, apenas duas crianças (que não eram irmãs) sobreviveram. Dois pares passaram pela operação normalmente, foram separados e sobreviveram.

Manoel Carlos Velhote afirma que casos de siameses predominam em países menos desenvolvidos por falta de diagnóstico precoce e impossibilidade de interrupção da gravidez. "EUA e Europa, por exemplo, abortam mais. Aqui se costuma levar a gestação até o fim", compara o médico.

Cirurgia de separação

A melhor opção cirúrgica, segundo Liao, é tentar preservar ao máximo os órgãos do lado que funcionam melhor, e tentar reconstruí-los na outra criança. Apesar disso, muitas vezes um dos gêmeos é favorecido, e aí entra um dilema ético sobre o procedimento.

"A discussão sobre o melhor momento de separação é grande. Alguns médicos acham que, quanto mais cedo, melhor, por aspectos anatômicos e de desenvolvimento. Outros preferem adiar, mas aí pode haver problemas, como a "síndrome da separação"", explica Velhote. A síndrome resulta em dificuldades psicológicas dos gêmeos para manterem vidas separadas.

O período médio indicado para a operação é a partir de dois a três meses de vida. A cirurgia é delicada e longa -- pode durar até 18 horas. Quem faz o procedimento é um cirurgião pediátrico, mas se a união for na cabeça quem opera é um neurocirurgião.

"Muitas vezes, precisamos reconstruir o trato digestivo, o intestino, a bacia e o fígado, entre outros órgãos. Algumas crianças precisam de prótese de perna, derivação urinária, evacuação por colostomia (o intestino grosso sai pelo abdômen). Então nem sempre a qualidade de vida é próxima do ideal", destaca o cirurgião do HC. Mas, de acordo com ele, se não houver malformações incapacitantes nem doenças, é possível viver dentro das limitações apresentadas.

Fonte: g1, www.g1.com.br