Quando acordou da sedação após 21 dias intubado, o empresário e advogado Geraldo Alves dos Santos Júnior, 54, encontrou um mundo novo. Ao dar entrada na emergência da Santa Casa de Maceió, no dia 24 de março, apresentava cansaço, febre e dor de cabeça. Após cinco dias de sintomas leves em casa, foi ao hospital com o novo coronavírus em fase avançada — o que obrigou os médicos a o levarem para a UTI (unidade de terapia intensiva) imediatamente.

"Achava que era um vírus que as pessoas, de uma maneira ou de outra, iam ter, mas achava que era algo leve", confessa ele, que segue internado, mas em apartamento tratando as sequelas da doença. "Foram 26 dias deitado. Isso deixa você meio atrofiado."

Geraldo foi o primeiro caso grave recebido pela Santa Casa de covid-19. Ali, a doença ainda dava passos iniciais no país e não tinha causado nenhuma morte no estado.

"Estava começando, eu dei sorte porque a Santa Casa tinha acabado de separar uma das UTIs para tratar somente os casos desse vírus. Fomos os primeiros pacientes dessa UTI, eu e minha mulher [que ficou internada, com quadro não tão grave, por uma semana]", conta.

O empresário afirma que não acha que demorou a procurar um médico. "Não demorei, foi rápido. Em algumas pessoas vem muito leve esse vírus, de casa mesmo conseguem se livrar. Nos primeiros dias, os sintomas são bem leves e a gente espera que passe. Quando começou a ficar mais forte, corremos aqui para a Santa Casa", lembra.

Geraldo tem sobrepeso e diz ser sedentário, mas afirma que cuida da saúde e não apresenta comorbidades. "Apesar ser sedentário e obeso, nunca fumei na vida, não tomo álcool há mais de 20 anos, tenho minhas taxas controladas e não sou hipertenso nem diabético. Talvez isso tenha salvado a minha vida. Mesmo com a força do vírus, a minha condição de saúde era boa. Mas considero [a melhora como] um milagre.".

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Na UTI, passou os primeiros 21 dias intubados até que teve uma melhora. "Quando acordei, não sabia onde estava, se estava em Maceió. Depois, fiquei mais seis dias na UTI até que o resultado final deu negativo e me liberaram para o apartamento", diz.

Do momento em que acordou até o que foi levado ao quarto, ele conta que foram momentos de dor pelo isolamento. "Essa talvez seja a parte mais difícil, porque esse tratamento isola você completamente da família. Para você ter ideia, tenho uma irmã que é médica, e nem ela pôde entrar. Só podem entrar na UTI os profissionais da equipe", lembra.

Além disso, ele reconhece a surpresa ao saber que o Brasil parou para conter o novo coronavírus. "O mundo está completamente diferente. Primeiro, para mim, porque me sinto pessoalmente abençoado por ter superado essa dificuldade. Segundo, porque você vai ler as notícias, e é inacreditável ver o mundo parado, ver a economia mundial parada. Quem acreditaria há 60 dias que a gente veria o que está vendo hoje em termos de fluxo de pessoas nas ruas, hotéis, restaurantes, aeroportos, pontos turísticos?", questiona.

No dia 16 de abril, após dramas e dores, ele deixou a UTI. Pela vitória da vida, saiu sob aplausos de toda a equipe médica. Fez um discurso emocionado, que foi registrado em vídeo.

Ele conta da dificuldade mesmo de vencer a doença: "O recomeço de quem passa 26 dias em uma UTI é difícil. Estou tendo de reaprender a caminhar, estimular para pegar o talher com a própria mão. No dia em que cheguei [no apartamento do hospital], não conseguia segurar o copo, escovar os dentes sozinho", afirma.

Após 30 dias sendo atendido no hospital, Geraldo pede para deixar um agradecimento a todos que participarem direta ou indiretamente de sua recuperação.

"Quero deixar registrada a atenção da equipe que me tratou, de agradecer a atenção dessa equipe da Santa Casa, não só profissionalmente, como na questão humana: mais que profissionais, foram humanos de pegar na mão e fazer oração junto, de estimular. Isso em hora nenhuma faltou para mim. E quero agradecer a corrente de oração e de pensamentos positivos de pessoas de todas as religiões, de todos os lugares; pessoas que nem conheço, que nunca ouvi falar. Fui abençoado por isso", finaliza.

(Por: UOL)