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Brasileiro sequestrado na Colômbia conta como foi resgate

Gaúcho e seu companheiro suíço passaram por 11 cativeiros com os dois lulus da pomerânia. Em vídeo, ele conta como foi retirado de cativeiro por militares de helicóptero.

Brasileiro sequestrado na Colômbia conta como foi resgate
| Divulgação
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O gaúcho José Ivan Albuquerque Matias, que ficou três meses sequestrado por uma guerrilha dissidente das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), está se preparando para embarcar neste fim de semana para a Suíça. Ele, o companheiro e os dois lulus da pomerânia foram resgatados pelo exército colombiano de helicóptero na quinta-feira (18). Informações do site G1

Ainda é muito difícil para Matias, de 50 anos, falar sobre os dias em que passou por 11 cativeiros “um pior que o outro” no departamento de Cauca, no sudoeste da Colômbia.

“Foi muito triste. Pensei várias vezes que ia morrer, que iam nos matar. Ficar três meses em um cativeiro, com guerrilheiros, vendo armas, crianças de 5, 6 anos de idade brincando com as armas dos pais. Eles tiravam a munição e os filhos brincavam”, lembra.

Em meados de março, ele e o suíço Daniel Max Guggenheim, de 67 anos, foram pegos por integrantes da "Coluna Móvel Dagoberto Ramos", uma facção dissidente das Farc, a guerrilha que entregou suas armas em 2016, depois de mais de meio século de conflito, com dezenas de milhares de vítimas civis.

O sequestro

O casal tinha chegado ao país em 10 de fevereiro para conhecer o famoso carnaval de Barranquilla, no norte do país. Eles visitaram a ilha de San Andrés, assistiram a um jogo do Grêmio em Cali e visitaram Buenaventura. “A viagem começou muito bem”, conta.

Porém, por causa das medidas de contenção da pandemia do novo coronavírus, eles tiveram que se deslocar para La Plata, onde um hotel tinha aceitado uma reserva. O GPS indicou um caminho mais curto que passava pela área de atuação da guerrilha.

Eles foram abordados por dois homens de moto quando pararam em frente a um mercado para pedir informações. Os sequestradores apontaram uma arma para o peito de Matias e questionaram o que estavam fazendo naquela região.

“O Daniel contou que estávamos indo para um hotel em La Plata e um deles respondeu: ‘Único caminho aqui é para quem vai para o cemitério’”, conta Matias.

Para Matias, os sequestradores não tinham costume de raptar estrangeiros. Inicialmente, queriam que ele sacasse US$ 25 mil em um caixa eletrônico. Não deu certo, porque o banco não autorizou. “Aí, decidiram levar a gente para o cativeiro.”

Já no cativeiro, os sequestradores usavam o telefone do suíço para entrar em contato com a família pelo WhatsApp. Um sobrinho de Guggenheim, que fala espanhol, tornou-se o interlocutor. Foi pedido inicialmente US$ 1,2 milhão e, num segundo momento, o valor caiu para US$ 250 mil. O montante não chegou a ser pago.

O cativeiro e os cachorros

Eles foram levados para 11 cativeiros ao longo dos três meses de sequestro. As casas não tinham acabamento, o chão era de terra e tinham muita umidade. A comida era divida com os cães, Fifi, de 13 anos, e Preto, de 9.

“Eles fizeram mais pela gente do que nós por eles. Eu ficava muito deitado. O Preto subia na cama para brincar. A gente repartia a comida com eles. Só nas últimas duas semanas que começaram a comprar ração”, afirma o brasileiro.

Com o tempo, o remédio da pressão de Matias e o da arritmia cardíaca de Guggenheim acabaram. Os sequestradores trouxeram mais. “Até uma pomada que eu compro na Suíça eles me levaram. Eu não sei como encontraram na Colômbia.”

Ao longo desse tempo, Matias perdeu 20kg. Ele chegou a passar mal e desmaiar. Durante as trocas de cativeiro, ele caiu e bateu a cabeça e Guggenheim quebrou o pé – o que só descobriu após ser resgatado.

As conversas com os sequestradores eram raras. Quando faziam perguntas sobre a família, escutavam sempre a mesma resposta: “Tranquilo. No pasa nada”.

“Chorar eu chorei pouco, porque não queria demonstrar fraqueza apesar de estar muito debilitado. Sempre fui uma pessoa de muita fé. Rezava todo dia. Na Semana Santa estava tão mal que pensei que ir morrer. Pedi até para chamarem um padre para mim, mas o rapaz que estava tomando conta do cativeiro ficou muito nervoso”, relata o gaúcho.

O resgate: ‘coisa de cinema’

Na quinta-feira (18), Matias conta que tinha tomado remédio para dor de cabeça e só ouviu no começo da manhã o barulho do helicóptero sobrevoando o cativeiro.

“O resgate foi uma coisa de cinema. Eu ouvi o barulho do helicóptero e me despertei meio tonto. Em 10 minutos, eles invadiram o quarto e a gente embarcou no helicóptero. Não teve um tiro.”

O único problema foi que o exército não sabia que eles estavam com os animais de estimação. “O Daniel falou para eles que só embarcaria com eles. Então, pegaram os cachorros e todos embarcaram. Eles não acreditavam que os sequestradores tinham deixado a gente ficar com eles. Queriam até ficar com eles de mascote, mas nós não deixamos.”

Trabalho social

Matias deixou o Brasil há mais de 10 anos, depois de encontrar Guggenheim em uma viagem de trabalho em Porto Alegre. Ele foi catador de material reciclável e chegou a criar uma cooperativa para os catadores chamada “Novo cidadão” com o objetivo de ajudar os catadores a conseguir preços melhores e também refeições, “porque na rua a só come quando dá”.

O casal viveu na Suíça e, atualmente, mora em Buenos Aires, na Argentina. A experiência no cárcere fez Matias repensar a vida.

“Quero escrever um livro sobre a minha experiência e fazer trabalho social. Daqui para frente, não vou me preocupar mais com relógio, pulseira, roupa de grife. Aprendi que dinheiro não é tudo”, conta.


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