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Livros: Mercado editorial já teme chegada da Amazon no Brasil

Chegada da loja ao Brasil mexe com mercado editorial, que se mostra reticente à concorrência.

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?A palavra é apreensivo. A Amazon deixou o mercado brasileiro apreensivo.? A visão de Guto Kater, um dos representantes da Associação Nacional das Livrarias (ANL), ilustra o sentimento da indústria editorial do País, que conta os meses que faltam para a chegada da gigante americana do varejo online, a Amazon.



A previsão era de que a empresa iniciaria as operações em setembro, o que por enquanto está descartado. Segundo um dos envolvidos ouvidos pelo Link, os contratos com quase 30 editoras e distribuidoras estão assinados ou em fase de conclusão. Questões de logística estão praticamente solucionadas.

Problemas relacionados a impostos seriam o fator de impedimento. A empresa teria dificuldades em conciliar o sistema usado internacionalmente com os daqui. Além disso, corre no Senado um projeto de lei que tenta incluir e-readers entre os produtos que recebem isenção total na importação, com livros e tablets.

Durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, entre 9 e 19 de agosto, um grupo de executivos da Amazon vem de Seattle para ?um grande anúncio?. Entre eles estão Pedro Huerta, que cuida das operações da Amazon na América Latina, e Russ Grandinetti, responsável pelo conteúdo do Kindle, o e-reader da empresa.

No anúncio, é provável que as dúvidas em torno da chegada da empresa sejam esclarecidas. Lá, os executivos devem dizer se, além de dar início à comercialização de e-books, a Amazon estreia também a venda nacional do e-reader e do tablet Kindle Fire e se venderá mais itens digitais e, em caso positivo, quando.

O que se sabe é que o primeiro passo no Brasil de fato será com livros digitais. Na verdade, seria o segundo passo, já que São Paulo já é endereço (o único na América do Sul) de um data center da empresa, utilizado para serviços de computação em nuvem que a Amazon também oferece.

A venda ?completa?, de artigos que vão de games, a barracas de camping e pneus de carro, demandaria um trabalho infinitamente maior ? de estoque e logística, por exemplo ? e, por isso, demoraria mais.

Pressão. Logo que a Amazon deu início às negociações com as editoras por aqui, há um ano e meio, as livrarias começaram um jogo de pressão. Livrarias, pequenas, médias e grandes se posicionaram contra e começaram a pressionar editoras para que elas não fechassem acordos ? ou pelo menos para retardar a chegada da loja ao País.

Para as editoras, o negócio é interessante. A Amazon seria mais um cliente, comprando todo o acervo de livro digital que oferecem. Porém, os mais conservadores têm medo de que o livro digital reduza as vendas dos exemplares de papel.

?Isso é medo do futuro?, diz Carlos Eduardo Ernnany, dono da primeira vendedora de livros digitais do País, a Gato Sabido, e da distribuidora Xeriph. ?O editor, que lucra com os livros físicos, tem de sacrificar o que lhe dá dinheiro para investir num mercado que ainda é pequeno, mas que poderá ser importante no futuro. Mas o futuro é daqui 30 dias.?

O presidente da Livraria Saraiva, Marcílio Pousada, não vê necessidade de pressa e diz que ainda ?tem muito livro físico para se vender no Brasil para podermos discutir se o digital vai ser mais importante?.

Apesar disso, ele reconhece que a chegada da Amazon é um momento importante para o mercado nacional e prevê disputas. ?Ela vai ter de competir com todos nós, que já temos experiência com o Brasil. Vai ter de lidar com rua esburacada, tributos, deficiência dos Correios, malha logística insuficiente. Por isso digo que o serviço de entrega da Amazon não vai ser melhor do que o do resto do mercado.?

Mas o dono de uma das maiores livrarias do País não é pessimista. ?Vamos competir sem problemas. Estamos preparados. Que venham os concorrentes!?

Kater, vice-presidente da ANL, acredita que a salvação das pequenas e médias livrarias está na oferta de serviços, de um melhor relacionamento com o cliente, atendimento personalizado e na aprovação da lei de um preço único para lançamento, evitando práticas anticompetitivas de mercado. ?Se as livrarias entenderem que não venderemos mais só livros, mas serviço, pode deixar a Amazon vir?, diz.

Fábio Uehara, chefe do departamento digital e responsável por aplicativos e e-books da Companhia das Letras, diz ser difícil avaliar o impacto da Amazon, mas ele vê a chegada positivamente. ?Eu acredito que sempre é importante ter vários players de peso no mercado. A concorrência é saudável?, diz.

A editora é dona de um catálogo de quase 4 mil livros, mas dispõe atualmente de um número dez vezes menor de e-books. Isso porque a conversão do formato PDF para o padrão de e-book (ePub) leva tempo e dinheiro. Mas Uehara garante que a tendência é que logo os títulos sejam lançados nos dois formatos ? físico e digital ? ao mesmo tempo.

?Estamos comprometidos, convertendo tudo o que podemos. Lançamos nosso primeiro título em abril de 2010. No início deste ano, tínhamos 200. Agora temos 400. A meta é chegar no fim do ano com 800 e-books.?

A conversão dos livros digitalizados pelas editoras é apontada como um desafios a serem superados para que esse mercado decole. Somando todo o catálogo nacional em português, é possível chegar a um número aproximado de 11 mil títulos. Em comparação, o acervo da Amazon tem quase 1 milhão.

Para Ernnany, a entrada da Amazon pode incentivar as editoras a acelerar esse processo, que diz ser bastante custoso. Para a conversão de cada livro gasta-se em média R$ 450. ?O problema é a falta de capacidade de investimento das pequenas e médias editoras brasileiras em converter seu acervo para ePub.?

Ele prevê que a Amazon ocupe de 50% a 60% do mercado e, apesar do abalo, isso deve impulsionar a profissionalização do setor e a popularização dos livros digitais, ainda restritos. ?Essa história pode custar caro para algumas livrarias que não se prepararam até hoje. Não tem como ficar olhando para ver o que acontece. Se quiser manter os clientes, que faça isso agora?, diz.


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