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Prescrever ‘kit covid’ é irresponsável e criminoso, diz médico

Apesar da falta de evidências que comprovem a eficácia destes medicamentos, eles continuam sendo prescritos a pacientes com Covid-19

Na contramão de estudos feitos em todo o mundo, que atestam a ineficácia e até mesmo os prejuízos dos medicamentos que compõem o 'kit covid', muitos médicos de Teresina, assim como do restante do Brasil, continuam prescrevendo-os como uma alternativa de tratamento eficaz a pacientes com Covid-19. Para o professor de Infectologia da Universidade Federal do Piauí, Carlos Henrique Nery Costa, tal postura é irresponsável e chega a ser criminosa.

“Essa é uma das coisas mais graves que já aconteceram no meio médico, é uma postura irresponsável e criminosa. Os profissionais estão se aproveitando da fragilidade das pessoas e do seu desejo de prevenir e curar a doença para prescrever remédios sem nenhuma eficácia demonstrada pela ciência. Medicina não é bruxaria, ela tem que ser baseada em evidências científicas”, afirmou.

Carlos Henrique critica a prescrição de remédios como cloroquina para pacientes com Covid-19 (Foto: Efrem Ribeiro)Carlos Henrique critica a prescrição de remédios como cloroquina para pacientes com Covid-19 (Foto: Efrem Ribeiro)Carlos Henrique critica a prescrição de remédios como cloroquina para pacientes com Covid-19 (Foto: Efrem Ribeiro)

O infectologista explica que remédios como a cloroquina continuam tendo efeitos eficazes em doenças como a malária e reumatismo, por exemplo, mas as evidências científicas deixam claro que não é eficaz para o tratamento de Covid-19.

“As pessoas quando vão ao médico, elas acreditam que vão receber o melhor tratamento. Estes medicamentos devem ser prescritos baseados na literatura científica e não em ideologização política ou de interesses econômicos inseridos na prática médica. Medicina, afinal, é sacerdócio”, disse o professor. “O elemento mais importante da consulta médica não é o próprio médico, mas sim seu paciente”, completou.

Atualmente, o coquetel de medicamentos não é reconhecido e é contraindicado por entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Europa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Mesmo sem eficácia, as prescrições continuam em Teresina

Além de receitar medicamentos sem eficácia comprovada, os médicos deixam de acolher e orientar corretamente os pacientes que estão com a doença, deixando-os ainda mais fragilizados psicologicamente.

A jornalista Nadja Dias testou positivo para Covid-19 em março deste ano e conta que se sentiu pressionada pela médica que a atendeu, em um hospital particular de Teresina, a tomar a cloroquina.

“Procurei atendimento médico no quarto dia de sintomas e a médica brigou comigo porque eu ainda não estava tomando cloroquina. Foi uma pressão psicológica. Não tem nenhum estudo que comprove a eficácia deste remédio contra a Covid, mas ela passou com uma convicção muito grande que os remédios me curariam. Foi horrível, tive uma experiência traumática, eu já estava muito fragilizada. Não cedi, não tomei, mas muita gente cede, isso é perigoso”, relatou.

Situação parecida aconteceu com o arquiteto Mateus Carvalho de Andrade. Ele testou positivo para Covid-19 recentemente e fez uma consulta na Unidade Básica de Saúde do bairro Mafrense, zona Norte de Teresina. Ele conta que dentre os medicamentos prescritos estavam a azitromicina e a ivermectina. “Ele [médico] disse que poderia pegar a azitromicina e a ivermectina na própria UBS”.

Hidroxicloroquina e Ivermectina compõem o "kit covid" (Foto: Reprodução/Internet)Hidroxicloroquina e Ivermectina compõem o 'kit covid' (Foto: Reprodução/Internet)Matheus, no entanto, optou por não pegar os medicamentos e não fazer o tratamento indicado pelo médico. “Eu na hora só concordei, afinal, a gente tende a aceitar a palavra do médico, mas após sair do consultório resolvi não pegar estes remédios”, disse.

“Eu acompanho as notícias e tenho alguns amigos e conhecidos médicos e eles falam que não tem comprovação científica”, afirmou. “Mas para falar a verdade eu já imaginava que ele fosse receitar, pois outros parentes foram em UBS e sempre eram receitados [os medicamentos]”, completou.

A postura do médico da UBS Mafrense vai de encontro ao próprio protocolo clínico para manejo de pacientes adultos com Covid-19 do COE (Comitê de Operações Emergenciais de Combate a Covid-19) de Teresina, que foi atualizado no final do mês passado, e orienta que os médicos da rede municipal de saúde não receitem estes medicamentos.

“Não prescrever cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina ou nitazoxanida com finalidade antiviral”, diz o documento.

Medicamentos colocam pacientes em risco, diz médico

O médico otorrinolaringologista Máriton Borges afirma que recebe diariamente pacientes com Covid-19 em seu consultório, mas é contra a prescrição destes remédios. Ele explica que os medicamentos, além de não terem eficácia comprovada, ainda acarretam riscos à saúde do paciente, devido aos efeitos adversos.

“Estes remédios expõem o paciente, já fragilizado pela doença, a riscos de efeitos colaterais potencialmente graves, como diarreia, dor de cabeça, enjoo, dor de estômago e até hepatite fulminante e arritmias cardíacas, resultados de medicamentos que não trarão benefício algum diante da infecção pelo novo coronavírus”, disse.

Outro prejuízo de se divulgar e prescrever o ‘kit covid’ como uma alternativa de tratamento contra a Covid-19, segundo o médico, é a falsa sensação de segurança que os medicamentos causam nos pacientes. “Por causar uma falsa sensação de segurança, os medicamentos podem levá-lo a ignorar condutas que comprovadamente diminuem a disseminação da doença: distanciamento social e uso de máscaras, por exemplo”, afirmou.

Para ele, a conduta mais adequada é a prescrição de medicações sintomáticas, além da ampla orientação ao paciente. “Medicações para dor, febre, náuseas, tosse ou diarreia, ajustadas de acordo com as queixas do paciente. Dar orientações sobre cuidados e sinais de alarme que indicarão necessidade de nova reavaliação do paciente e de contactantes também é essencial”, disse.

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